Anteriormente, publiquei um conjunto de variações para a cantiga Del Verbo divino, de San Juan de La Cruz. Sigo aqui com esta série de exercícios de tradução em torno da obra do patrono dos poetas espanhóis, agora com seu famoso poema La noche oscura.
Breve comentário, versões original e em português a seguir.
La noche oscura é comumente relacionado em sua fortuna crítica ao período em que seu autor foi preso por frades contrários à reforma que vinha sendo conduzida na Ordem Carmelita. Foi um período de privação que Juan nunca havia chegado a sofrer antes, nem mesmo durante a infância, logo após a perda do pai. Além da privação da liberdade de ir e vir, o fundador dos Carmelitas Descalços foi submetido por seus opositores a uma condição desumana, violenta e sádica.
É natural que os danos e angústias do cárcere tenham intensificado aspectos da sua sexualidade, bem como sua procura pela transcendência da provação carnal para o gozo espiritual, e isso se reflete mesmo na obra: uma fuga desesperada da amada em busca de seu Amado. Sob essa perspectiva da flagelação e do encarceramento do autor, A noite escura da alma ganha outra dimensão, como se fosse uma refração verbal da cela escura em que aprisionaram o corpo do poeta.
O tratado La noche oscura del alma foi acrescentado posteriormente por Juan de la Cruz, e reforça a intenção teológica do poema. No meu caso, no entanto, seu efeito foi o inverso, soando antes como uma tentativa de atenuar aquilo que transborda de maneira intrínseca ao texto. A versão em português realça impremeditadamente o erotismo (in)contido nas imagens. Foi algo que se desenvolveu no fluxo de tradução, provavelmente em função da própria obra e da natureza carnal do idioma espanhol.
Traduzi apenas o poema. O original segue logo depois da versão em português.
A noite escura
Cantigas da alma que goza de chegar ao alto estado da perfeição, que é a união com Deus, por meio do caminho da negação espiritual.
Na calada da noite,
com calores de amor atormentada —
(ó venturosa sorte!)
— saí sem ser notada
já estando minha casa sossegada,
como dama-da-noite
escondida, em segredo, pela escada —
(ó venturosa sorte!)
— no escuro, na calada,
já estando minha casa sossegada,
na noite tenebrosa,
penumbra que ninguém me ver podia
nem eu vi coisa alguma,
sem outra luz ou guia
senão a que no coração ardia.
Por ela me guiava,
melhor que à luz do sol de meio-dia
até onde me esperava
quem disse que estaria
esperando o que dar eu não podia.
Ó noite que me guiou!,
ó noite amável, melhor que a alvorada,
ó noite que juntou
Amado com amada,
amada em seu Amado transformada!
Em meu peito tatuado,
que todinho só pra ele se guardava,
ele dormiu, deitado
em mim se regalava,
e um incenso de cedro perfumava
o vento da janela,
e enquanto eu bagunçava seus cabelos,
suas mãos, no toque delas
eriçando meus pelos,
transformavam meu corpo e alma em desejo.
Deitei e me entreguei,
o rosto reclinado sobre o Amado —
tudo parou e dei-me,
e dando sem cuidado
deixei pras açucenas o passado.
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La noche oscura
Canciones del alma que se goza de haber llegado al alto estado de la perfección, que es la unión con Dios, por el camino de la negación espiritual.
En una noche oscura,
con ansias en amores inflamada,
(¡oh dichosa ventura!)
salí sin ser notada,
estando ya mi casa sosegada.
A oscuras y segura,
por la secreta escala disfrazada,
(¡oh dichosa ventura!)
a oscuras y en celada,
estando ya mi casa sosegada.
En la noche dichosa,
en secreto, que nadie me veía,
ni yo miraba cosa,
sin otra luz ni guía
sino la que en el corazón ardía.
Aquésta me guiaba
más cierta que la luz del mediodía,
adonde me esperaba
quien yo bien me sabía,
en parte donde nadie parecía.
¡Oh noche que me guiaste!,
¡oh noche amable más que el alborada!,
¡oh noche que juntaste
Amado con amada,
amada en el Amado transformada!
En mi pecho florido,
que entero para él solo se guardaba,
allí quedó dormido,
y yo le regalaba,
y el ventalle de cedros aire daba.
El aire de la almena,
cuando yo sus cabellos esparcía,
con su mano serena
en mi cuello hería,
y todos mis sentidos suspendía.
Quedéme y olvidéme,
el rostro recliné sobre el amado,
cesó todo, y dejéme,
dejando mi cuidado
entre las azucenas olvidado.
