Chama de amor viva e a relação íntima com Deus

Quarto post da série de traduções da obra de Juan de La Cruz

Outro célebre poema de Juan de la Cruz, Llama de amor viva, também traz a temática central de sua poesia, explícita no subtítulo da obra: Canciones del alma en la íntima comunicación, de unión de amor de Dios.

A necessidade que o autor sentiu de incluir esta explicação adjacente, como já havia feito em outras canções, com glosas e subtítulos, reforça ainda mais a potência dessa escrita de se abrir a outras leituras e perspectivas.

A proximidade temática e compositiva com La noche oscura, do mesmo autor, e com referências das Escrituras Sagradas, como o Livro do Gênesis e o Cântico dos Cânticos, é facilmente identificável.

Essa temática da união mística com Deus, apresentado na figura do Amado, segue uma linha dúbia da imagem denotativa de um canto de amor erótico que serve de metáfora para uma conotação religiosa.

No total, são quatro estrofes, ou liras, de seis versos cada, no mesmo esquema rítmico, perpassando o caminho rumo à ascensão ao divino, à união com Deus ou, literalmente, ao encontro amoroso.

É interessante notar o vínculo constante entre sexualidade e sacralidade, destacada desde o início, no rompimento da tela que separa a amada do amado, do Amado e do leitor.

Segue primeiro o original e depois a tradução, por fim, um par de variações em torno da última estrofe do poema.

Llama de amor viva

Canciones del alma en la íntima comunicación, de unión de amor de Dios.

1
¡Oh llama de amor viva,
que tiernamente hieres
de mi alma en el más profundo centro!
Pues ya no eres esquiva,
acaba ya, si quieres;
rompe la tela de este dulce encuentro.

2
¡Oh cauterio suave!
¡Oh regalada llaga!
¡Oh mano blanda! ¡Oh toque delicado!
Que a vida eterna sabe
y toda deuda paga;
matando, muerte en vida la has trocado.

3
¡Oh lámparas de fuego,
en cuyos resplandores
las profundas cavernas del sentido,
que estaba oscuro y ciego,
con estraños primores
calor y luz dan junto a su querido!

4
!Cuán manso y amoroso
recuerdas en mi seno
donde secretamente solo moras,
y en tu aspirar sabroso
de bien y gloria lleno
cuán delicadamente me enamoras!

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Chama de amor viva

Canções da alma na comunicação íntima, de união de amor de Deus.

Ó, chama de amor viva
que ternamente fere
de minha alma seu mais profundo centro!
Pois já não tenho esquiva,
me acaba se quiser,
rompe a tela deste doce encontro!

Dá-me o cautério terno
pra regalar a chaga.
Com dedos brandos, mão tão delicada
que faz da chama eterna
vida e dívida paga;
matando, morte em vida foi trocada.

Labaredas de fogo
que resplandecem cores
nas profundas cavernas do sentido,
que estava obscuro e cego,
com estranhos primores
dançam, levando luz a seu Querido!

Tão manso o teu amar
recorda – no meu peito
onde secretamente você mora,
e no teu respirar
pleno, de glória cheio,
quão delicadamente me namora.

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Outras versões da última estrofe

Tua mansidão é grande,
lembro dela no teu
sono. É neste pingente que te escondo.
E, por tua aspiração de
glória vinda do céu,
desavisadamente me apaixono.


Ó, Ser manso e amoroso,
recorda – no meu seio
onde secretamente mora só ou
em teu ar saboroso
meio vitória meio
loser bom pra casar – que me fitou?

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Leia mais sobre Juan de la Cruz aquiaqui e aqui.

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